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"Hoje, somente com a saudade remanescente do tempo que
amamos, folheio àvidamente as belas páginas de amor que
escrevi inspirado em ti. O corpo, encurvado pela idade, pelos
embates da vida, deixo-o abandonado no sofá, enquanto a alma,
evolando pelo espaço, percorre os anos revisitando avidamente
acontecimentos que nos foram caros. As mãos, tocadas pelas
rugas, seguram amarelecidas cartas. Nelas, para mim, ainda
contém trechos vivos, parcelas de vivências inesquecíveis. Vidas
que tivemos e nem o tempo conseguiu apagá-las; sobreviveram na
favila de meu pensamento e rodopiaram hoje em minha mente,
libertando-se, então, das cinzas que trago comigo. E tu? Será que
ainda te lembras de mim? Ou libertaste da dor com a cruel
separação a que fomos levados? A vida nos reservou uma tortura
difícil de compreender. Eu que acreditava e via em nós o mais
sublime dos amores, por um instante o cruel destino converteu-o
em fragmentos de penosos sofrimentos. Nem mesmo um aperto
de mãos para encadear uma amizade. Nada, nada tive de ti.
Somente me vem à lembrança, os teus tristes olhos fitando-me
com uma dor imorredoura, arrancando-me profundos suspiros,
incapazes de explicar ou entender o pesado silêncio que
sobreveio fatal. E nos afastamos lentamente assim,
incompreensivelmente em silêncio. Eu tinha medo de perdê-la,
mas uma força estranha afastava-me cada vez mais de ti; lutava
inutilmente contra um inimigo invisível, poderoso, que cravava suas
unhas nas minhas entranhas levando-me para um inferno de
desconsolo e mágoas. Fui levado e nos separamos. Hoje, relendo
estas páginas que tantos anos trago comigo, as lágrimas quentes
me afloram à face, escorrendo impiedosas seu sabor até à boca,
misturando ao gosto saudoso de tudo que ficou. Assim consistiu
minha vida: lutar, amar e sofrer; dos atos dessas palavras eu os
vivi para você. Tive-os comigo sempre para você. Se ainda toco a
tua sensibilidade --- imagino --- confesso que me encontro
espinhado por ela. Querida, talvez neste momento estejas a alisar
os cabelos de teus netinhos como a brincar com instrumentos
inocentes, alheia a tudo que passamos. Se choras por mim, não
sei; se pensas em mim, não tenho certeza disso. Todavia, se me
tens furtivamente no coração, consola-me o peito."
Moura Vieira
Publicado no Recanto das Letras em 11/04/2010
Código do texto: T2190277
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